quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Sobre A Sexualidade da Chapeuzinho Vermelho

          Isso que estou escrevendo aqui seria apenas um acréscimo para os comentários do último post, em que discutia o significado simbólico do livro Crepúsculo. Porém, no fim, resolvi escrevê-lo aqui, já que teria bastante a dizer. E outra coisa foi que o Daniel (que participou das discussões do post anterior) me conseguiu uma imagem muito boa - encontrada na internet - da chapeuzinho vermelho, que serviu para uma camanha da Campari. A foto é muito interessante, aqui está ela:

Lobo e Chapeuzinho Vermelho
Chapeuzinho Vermelho e o Lobo

          Sim, essa é para ser a Chapeuzinho Vermelho adulta... Ela está bem sensual, e, se notarem bem, está com o lobo pela corrente... Ou seja, essa campanha parece passar a imagem de uma mulher "forte", que não mais depende dos homens, mas que até os controla, já que o lobo aí está mais uma vez representando "o Homem". A lareira lá trás está acesa, simbolisando o calor da sexualidade. E outro detalhe interessante é que, por baixo da capa, a chapeuzinho está com um vestido branco o qual lembra um vestido de noiva, o que poderia significar que ela tem "compromisso" com suas relações, ou para lembrar-nos de que um dia ela já sonhou com os ideais de um casamento perfeitinho. Só que agora o vestido está sujo até... Já a tempestade costuma, simbolicamente, significar um conflito, ou uma expressão de agressividade. Mas aí acho que já estamos indo muito além do necessário. Nem sempre podemos desvendar todos os detalhes simbólicos, e talvez a tempestade só esteja lá para ficar "legal", talvez seja fruto inconsciente da mente do produtor desta foto...

           Gostaria de falar um pouco mais sobre a história da Chapeuzinho Vermelho, conforme é mostrado no livro de Corso & Corso, e em tantos outros. Para isso, vou copiar três parágrafos do livro Fadas no Divã, da página 55, as quais acho mais revelador. Ou seja, não quero escrever toda a discussão que é feita... Vou resumir.

           Não é difícil perceber que Chapeuzinho está cativada por algo que não compreende, mas sente. Nesse sentido, são muito ilustrativas as gravuras clássicas de Gustave Doré que retratam o primeiro encontro da menina com o lobo na floresta e os dois deitados lado a lado na cama. Em ambos desenhos, Chapeuzinho olha para o lobo fixamente, entre intrigada e hipnotizada. Há uma mútua sedução implícita. O que seduz e fascina a menina não é certamente a beleza do lobo, de quem não podemos afirmar que seja um galã, são suas segundas intenções. Afinal, o predador podia ter devorado sua tenra presa num canto qualquer da floresta. Distraída colhendo borboletas, era fácil de ser emboscada, mesmo assim ele a atraiu para cama, para lá lhe passar sua conversa mole antes de devorá-la.
           Chapeuzinho está interessada em saber no que ele está interessado, poderiamos dizer que é o desejo dele que a intriga. Mas gostaríamos de frisar que, para a menina, isso é mais uma curiosidade, digamos, teórica, que a pretensão de chegar a algum tipo de envolvimento erótico com seu sedutor. Um abismo separa as intenções de um pedófilo da capacidade de compreensão da criança de quem ele se aproveita. Infelizmente, para as pobres vítimas desse crime, é justamente essa inocência curiosa que seduz o abusador: o contraste entre a condição adulta de seu propósito e a infantilidade da vítima.
           O conto Chapeuzinho Vermelho trabalha o tema da sexualidade infantil dentro do território do possível e necessário para as crianças pequenas. Ter uma sexualidade, sabê-la e exercê-la são três coisas bem distintas. Esta última possibilidade somente se inaugura com a adolescência, enquanto a infância oscila entre as duas anteriores. Chapeuzinho é útil para aqueles que sentem que a têm, estão curiosos com seu significado, mas ainda não estão prontos para explicar esse conhecimento.

           Finalmente, acho que toda essa explicação sobre a chapeuzinho vermelho torna-se similarmente aplicável à história Crepúsculo, conforme estávamos dizendo no post anterior. Assim como as pessoas leem a história da Chapeuzinho Vermelho e nunca se dão conta do seu significado "oculto" (e eu também não sabia do significado, até aprender formalmente, através do livro, ou pelo que me disse alguém que já havia estudado isso...), também quem lê a história Crepúsculo nunca se daria conta de todo seu significado. E todas as histórias, no fundo, tem um plano simbólico inconsciente. E às vezes nem o próprio autor se dá conta... Então, é claro que não podemos afirmar que a Meyer (autora do livro Crepúsculo) tenha pensado em cada detalhe simbólico. Talvez não, talvez realmente ela tenha escrito sem pensar. Mas um indício de que ela pensou pelo menos uma parte disso tudo é o fato de ela ter dito que escolheu a capa pensando no significado do Gênesis, de Eva cometendo o pecado original...

terça-feira, 14 de setembro de 2010

O que Felipe Neto não sabe sobre... O livro "Crepúsculo"

          Tenho assistido aos videos do Felipe Neto no You Tube e tenho concordado com muita coisa do que ele fala... Bom, acho que os videos são no mínimo engraçados, gostei. Mas com um video em especial eu tenho que discordar, que é o que ele fala da história do Crepúsculo... E não é porque sou algum fã dessa história. Para falar bem a verdade, eu nunca li um livro da Stephenie Meyer, nem vi o filme e nem pretendo ver. É que não gosto de histórias de vampiros, eu gosto de terror de verdade, como Stephen King, ou o terror fantástico de H. P. Lovecraft... Enfim, questões próprias. Mas a questão toda é que, vendo aquele video, e sendo eu um escritor e um estudante de Psicologia, acabei entendendo coisas mais além, e as quero apresentar aqui. Por isso, minha argumentação se baseará apenas no que conheço sobre simbologia, escrita literária e no pouco que ouvi da história daquele livro; e quero fazer uma análise dele.
          Para quem não viu ainda o video, ou para quem quer revê-lo, vou deixar um link no fim dessa postagem, dentro da seção Referências. Não vou postar o video aqui por questões de direito autoral. Também lá encontra-se um link para uma descrição sobre a história Crepúsculo ["Twilight", na versão original] no site do Wikipédia.

          Quero começar pela capa do Crepúsculo. Aqui está ela:



Capa do livro Crepúsculo, de Sephenie Meyer - Felipe Neto
Capa do livro Crepúsculo, de Stephenie Meyer

          O que se vê nessa capa? Sempre que ia nas livrarias e via os livros dessa autora, perguntava-me "Por que essas capas tão estranhas?". Mas nunca fui atrás de tentar descobrir, pois uma vez assisti a uma palestra de dois grandes capistas do RS e eles disseram enfaticamente que uma capa não precisa mostrar simbolicamente o conteúdo do livro, pois a função da capa é unicamente vender. Por isso, fiquei com uma resposta na mente: "Essas capas são só um truque de marketing". No entanto, ouvindo o Felipe Neto falar sobre a história do livro, e vendo novamente essa capa na mão dele, tive um insight!
          Vamos partir do pressuposto que vocês já assistiram ao video do Felipe Neto, então, não vou ficar aqui apresentando tudo o que ele disse, nem toda a história. Vou já dizer o que tenho de novo, a acrescentar.
          O que tem essa capa a ver com a história do livro? Duas mãos femininas segurando uma maçã... Quem entende de simbologia logo vê que, primeiramente, essa história de uma mulher pegando uma maçã nos remete à história bíblica de Eva, pronta para cometer o "pecado original". E essa história bíblica tem, no fim, o mesmo significado da história contada pela Stephenie Meyer. Mas qual é esse "pecado original"? É quando uma mulher deixa de ser Menina e passa a ser Mulher. O Edward é um vampiro, um ser sem vida, ainda virgem, frio. Ele representa o homem idealizado, o "amor perfeito". Mas, no meio da história, como diz o Neto, chega o Jabob, um lobo, um ser que representa toda a virilidade masculina, um ser vivo, de sangue quente. E ele é um "comelão". E a partir daí a Bella se torna uma "safadinha". E o Jacob quer ela...
          Esse é o dilema principal do livro: uma menina que ainda sonha com um amor perfeito, mas que começa a ter desejos sexuais pelo sexo oposto. Isso, curiosamente, é o mesmo tema simbólico daquela famosa história da "Chapeuzinho Vermelho". Na Psicologia existe um livro muito famoso de Bruno Bettelheim que se chama "Psicologia dos Contos de Fadas", em que ele analisa simbolicamente e psicanaliticamente vários famosos contos de fadas. Eu não li esse livro, mas li um livro que tinha a mesma temática e que usou o livro do Bruno como referência principal, que é o "Fadas no Divã: psicanálise nas histórias infantis", de Corso & Corso. A interpretação do conto da Chapeuzinho vermelho é que ela é uma menina que começa a ter seus primeiros desejos sexuais pelo sexo oposto, então representado pelo "lobo mau". No fim da história original, o lobo acabava comendo a chapeuzinho, mas atualmente essa história acabou sendo modificada, por razões óbvias... É que originalmente a história servia para assustar as crianças... Mas, enfim, a história do Crepúsculo carrega a mesma temática, mas de forma diferente.
          A cena da cabana é o momento crucial... A Bella ama o Edward, e resolve ficar com ele. Aí os dois vão para uma cabana, enquanto o Jacob está do lado de fora para protegê-los. Mas a Bella começa a passar frio... O que significa isso? Ela sente falta do "calor sexual", simbolicamente, é claro. Só que o Edward não pode aquecê-la, pois ele é um vampiro, de sangue frio... Ou seja... O amor ideal não tem calor sexual para aquecê-la. E é aí que entra o Jacob, oferecendo-se para abraçá-la e aquecê-la. E, como diz o Neto, o Jacob chega sem camisa e a abraça, com o peru duro nas costas dela, hehehe. Exatamente! É isso que significa... E o Edward se sente feliz, pois ele a está salvando da morte. O que é isso tudo? É uma menina se tornando mulher, tendo de encarar que ela é mulher e encarar o que sente, seus impulsos sexuais... Essa cena é como se fosse uma primeira masturbação feminina, ou a primeira menstruação...
           E aí vem a outra cena, logo em seguida. Nas palavras do Neto, "O Edward leva ela para cama. E ela pede 'por favor, me come'. E ele fala que não. Ele fala que quer esperar o casamento". E isso significa que a Bella está se dando conta de que esse amor perfeito não pode lhe prover o "calor sexual"... Enfim, não sei como termina esse livro, e confesso que até fiquei curioso em saber. Se alguém quiser, conte nos comentários como termina.
          Outro detalhe importante sobre a capa é o detalhe da letra V, formado pelos dois braços. A letra V, como se explicou até naquele livro "O Código da Vinci", é um antigo símbolo do feminino. E, além disso, se você olhar de outra forma, a imagem pode simbolizar a região pélvica, com as duas virilhas pelos braços, e com o órgão reprodutor feminino pela maçã. Inclusive o vermelho é uma cor que simboliza o sexo, a paixão, o inferno... todo esse grupo de significados. O vermelho também estava presente na cor do capuz da chapeuzinho vermelho, com o mesmo significado. Ou seja, todo esse composto de significados simboliza toda a temática da história: a transição da fase de menina para mulher. E a capa consegue mostrar isso de todas as formas possíveis, e é por isso que ela é TÃO FANTÁSTICA!!!!

Mas veja o que diz no Wikipédia: (e eu vi isso depois da minha interpretação)

          Stephenie Meyer declarou que a maçã na capa de "Twilight" representa o fruto proibido do livro de Gênesis. Ela simboliza o amor de Bella e Edward, o que é proibido, semelhante ao fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, como está implícito pela citação de Gênesis 3:3 no início do livro. Representa também o conhecimento de Bella daquilo que o bem e o mal são, bem como a escolha que ela tem do "fruto proibido", Edward, escolhendo ou não vê-lo.

          Bem, ela teve que dar alguma explicação para aquela capa maluca, quando as pessoas lhe perguntaram. Mas, é claro, vocês acham que ela iria comentar que o V é o simbolo feminino e que tem simbolicamente uma "vagina" na capa do livro dela? É claro que não. No entanto, eu, como autor, digo-lhe que um autor que se preze (e que possa ter escolhido a capa de seu livro), com certeza, pensa em cada mínimo detalhe!
          Mas tem uma contradição entre tudo aquilo que eu inferi e a declaração da Meyer... Ela diz que a maçã, o "fruto proibido", representa o Edward; enquanto que eu tinha interpretado como se fosse o Jacob. E agora?? Bom, talvez realmente ela tenha pretendido representar isso... MAS... simbolicamente, quem é o fruto proibido? O amor perfeito, ou o sexo, o prazer carnal? Na história bíblica é o sexo, não é mesmo? E é isso que a igreja tanto reprimiu durante sua história: o prazer sexual (o sexo só seria permitido para reprodução, e sem sentir prazer). Então, simbolicamente, a maçã deveria simbolizar o Jacob, não o Edward. Assim, se é que ela realmente tenha dito isso, disse errado, ou refletiu simbolicamente de forma equivocada.

          O Felipe Neto criticou o Crepúsculo por ser uma história boba, sem sentido algum. Mas existe sim um grande sentido em toda essa história, como provei aqui, e é exatamente por esse sentido "oculto" que a história carrega que ela fez tanto sucesso e cativou tantas pessoas. Todas as pessoas em sua vida, na adolescência, precisam passar pela fase de "provar o fruto proibido". E não falo especificamente de perder a virgindade. Falo também de todo o processo de descobertas da sua sexualidade. O amor platônico precisa então entrar para a realidade. A amor perfeito precisa estar na pessoa com quem se apaixona, mas junto precisa se encontrar com o "calor sexual". Ou seja, um homem precisa conseguir unir dentro de si tanto o Edward quanto o Jacob, e só assim ele conseguirá agradar uma mulher. Portanto, essa história não só afeta as mulheres, mas também os homens que estão passando por essa fase. Por isso, o Felipe Neto erra ao dizer que a história é só para menininhas virgens, ou para meninos que queriam ser menininhas...
          E digo mais... Qualquer pessoa, mesmo um adulto, poderia se emocionar por uma história dessas, mesmo já tendo superado esse dilema adolescente. E é mais ou menos isso que acontece com o próprio Felipe Neto... Ele vê o filme e fica indignado, pois o Edward "não come a Bella". Isso é o que normalmente se esperaria de um jovem que já superou essa fase de descoberta sexual. Ou seja, um homem se identifica com o Edward (pois ele é o amor da Bella), mas um homem já tem o Jacob incorporado dentro de si, e por isso não consegue se conformar que o Edward não represente a figura masculina "completa". Pensando somente em sexo, sem amor, um homem poderia se identificar com o Jacob, e pensar "Porra, Jacob, da um pau nesse Edward e come essa bela de uma vez!!". Assim como uma mulher, se pensar somente em sexo, sem amor, poderia pensar "Ah, Bella, esquece logo esse bicha do Edward e dá logo pro Jacob!". Mas é claro que adolescentes que ainda não se descobriram totalmente no sexo, teoricamente, jamais poderiam ter esse tipo de ideia... Assim como um adulto poderia olhar para a capa do livro e chegar à conclusão de que se trata de uma "pelve" (claro, se manjar um pouco de simbologia), enquanto que uma "criança" jamais chegaria a essa conclusão sozinha.

          E eu me declaro agora UM FÃ da Stephenie Meyer!! Mesmo sem ter lido um livro dela, hehehe. É que ainda não gosto de histórias de vampiro... Mas, se eu ver um livro dela que fale sobre algum tema do qual gosto, aí o lerei.
          É assim que se escreve um Best Seller!! É pensando em cada detalhe, e fazendo uma história que tenha como pano de fundo um grande conflito de vida das pessoas. Se a história do Crepúsculo fosse diferente, sem sentido algum, muito provavelmente não seria percebido como tão interessante e a autora venderia só por ser ela uma pessoa famosa e por escrever bem, mas só isso... nada além alcançaria... Mas esse livro, pelo contrário, é muito bem pensado!!


Referências


Video do Felipe Neto
http://www.youtube.com/watch?v=2Lp7XO6oWCM

O livro Crepúsculo, no Wikipédia
http://pt.wikipedia.org/wiki/Crep%C3%BAsculo_%28livro%29


Outras bibliografias para possível pesquisa:

Fadas no Divã: Psicanálise nas histórias infantis / Diana Lichtenstein Corso, Mário Corso. - Porto Alegre: Artmed, 2006.




terça-feira, 7 de setembro de 2010

Felicidade


          Felicidade é poder expressar-se por si mesmo, é viver intensamente cada momento no presente sem temer o amanhã. Quem não gostaria de ter uma casinha no alto da montanha?